O urologista Miguel Srougi fala sobre os problemas que acometem a próstata e afirma que muitos homens ainda relutam em fazer o exame de toque retal. Veja abaixo entrevista sobre problemas que acometem a próstata.

A próstata é uma glândula que tem o tamanho aproximado de uma castanha e produz o líquido espermático ou esperma, substância que contém nutrientes e serve de veículo para os espermatozoides chegarem até o óvulo. Ela se localiza muito perto da bexiga, um órgão muscular que se distende à medida que a urina se acumula em seu interior. Da bexiga sai a uretra, um canal longo que atravessa a próstata e o pênis até ganhar o meio exterior. A proximidade entre esses órgãos faz com que qualquer problema que afete a próstata acabe repercutindo na bexiga e na uretra.

Hiperplasia e câncer de próstata são patologias frequentes na vida adulta do homem. A hiperplasia caracteriza-se pela multiplicação benigna das células prostáticas. Quando isso acontece, o aumento da próstata comprime bexiga e uretra e provoca dois sintomas. O primeiro é a dificuldade para urinar. A pessoa é obrigada a fazer esforço para vencer a passagem comprometida pela compressão da glândula, o jato urinário fica mais fino e perde a potência. O segundo é a redução da capacidade de a bexiga reter urina. Quem tem hiperplasia de próstata urina com maior frequência, especialmente à noite o que pode comprometer a qualidade do sono.

A hiperplasia é uma lesão benigna. Já no câncer de próstata, as células prostáticas perdem a inibição, crescem e invadem os tecidos vizinhos. O câncer é um processo maligno que traz consigo uma série de outros problemas.
Drauzio – Não é um contrassenso um órgão que vai perdendo a função, em vez de atrofiar, ir aumentando de tamanho? Por que a próstata hipertrofia com a idade?

Miguel Srougi – São coisas que a natureza criou e que talvez nem a teoria evolucionista explique. É possível que nossos irmãos do futuro até percam a próstata após a fase reprodutora, mas por enquanto ela causa transtornos aos homens. Infelizmente, além do crescimento benigno, é sede de um câncer muito comum. Um terço dos tumores que se originam no organismo do homem partem da próstata. Essa alta prevalência torna a glândula bastante inconveniente e gera problemas que preocupam os médicos e a respeito dos quais a população masculina está começando a tomar consciência.

Como não produz sintomas, o tumor pode crescer de forma silenciosa e, quando é descoberto, em geral, já atingiu os tecidos vizinhos e a possibilidade de cura cai muito. Só para dar uma ideia, se o tumor ainda estiver contido pela glândula, é curável em 90%, 95% dos casos. Se escapar dali, mesmo antes de se espalhar, só por atingir os tecidos vizinhos, a chance de cura cai para 35%.

Drauzio – Em que fase da vida começa a ocorrer a hiperplasia, ou seja, o aumento benigno do volume da próstata?

Miguel Srougi – Ela se inicia por volta dos 40 anos. Por isso, a partir dos 50 começam a surgir problemas urinários em 80%, 90% dos homens, como a dificuldade para expelir a urina e a necessidade de levantar várias vezes numa noite para ir ao banheiro. Embora esse quadro não tenha nenhuma implicação futura para o doente, prejudica sua qualidade de vida naquele momento.
Drauzio – Quais são os principais sintomas da hiperplasia?

Miguel Srougi – O sintoma prevalente é a perda da força do jato. Isso os homens toleram bem. O que mais os incomoda, no entanto, é o aumento da frequência urinária porque compromete sua rotina de vida. O indivíduo é obrigado a sair mais de uma vez de uma reunião importante para ir ao banheiro, ou começa a acordar muito durante a noite para urinar e levanta cansado no outro dia.

Drauzio – Como fica o volume urinário com o aumento do número de micções?

Miguel Srougi – O volume urinário fica menor porque a bexiga perde um pouco a complacência.
Miguel Srougi – Existem três fatores de risco que levam ao crescimento benigno da próstata: história familiar, pele negra e ingestão de gorduras. Quem tem pai ou irmão com hiperplasia, apresenta três vezes mais possibilidade de desenvolver o problema do quem não tem.
Drauzio – A próstata não provoca problemas exclusivamente na velhice. Adolescentes podem ter problemas de próstata, as prostatites. O que são prostatites e quais as causas mais frequentes?

Miguel Srougi – Em termos de saúde pública, trata-se de um problema menos relevante. Prostatite é uma infecção da próstata provocada por bactérias do intestino que a contaminam. É um problema que atinge adultos jovens e causa desconforto local, dor na região genital e dificuldade para urinar. Felizmente, a prostatite responde bem ao tratamento com medicações especificas, em especial, os antibióticos. Alguns homens podem até ficar com manifestações crônicas, mas que não têm maiores implicações.
Drauzio – Prostatites podem comprometer a capacidade de ereção?

Miguel Srougi – A próstata está ligada a certas fantasias negativas que surgem na cabeça do homem, principalmente, ao risco de ver perturbada a função sexual. É uma suposição falsa. A próstata nada tem a ver com a função sexual. Tem a ver com a função reprodutora, com a capacidade de o homem ter filhos. O nervo da ereção que passa do lado da próstata raramente é afetado, mesmo quando existe uma doença nessa glândula. Nos casos de câncer, tratamento que demande intervenção cirúrgica no local e radioterapia podem provocar lesões nesse nervo e isso, sim, irá comprometer a atividade sexual. Quero enfatizar, entretanto, que nem as prostatites, nem o câncer, interferem com o mecanismo da ereção.

DETECÇÃO DE CÂNCER DE PRÓSTATA

Drauzio – A prevenção do câncer de próstata envolve o toque retal, mas os homens costumam resistir a esse procedimento. Qual é sua experiência a respeito do assunto?

Miguel Srougi – O diagnóstico do câncer de próstata é feito de duas formas: pelo toque retal e pelo exame de sangue chamado PSA (antígeno prostático específico), uma proteína que só a próstata produz e que se eleva muito nos casos de câncer.

Na cabeça dos homens existe a fantasia de que o exame de PSA é suficiente para o controle preventivo do câncer. Na realidade, não é. Ele falha em 20% dos casos. Embora o de toque falhe em 35%, fazendo os dois juntos a probabilidade de deixar escapar um problema cai para 8%. Portanto, um exame não exclui o outro. Ao contrário, um complementa o outro na realização do diagnóstico.