O Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, celebrado em 8/8, visa promover a importância da conscientização e do tratamento do colesterol alto. O colesterol é um tipo de gordura que faz parte da estrutura das células de nosso organismo, sendo um componente fundamental para a integridade das células e para a produção de hormônios. Mas, seu excesso na circulação é danoso ao organismo.

O colesterol pode ser ocasionado por vários fatores, como causas genéticas, doenças renais, hipotireoidismo, obesidade, diabetes, alimentação inadequada, com alta ingestão de gorduras saturadas, de gorduras trans, baixa ingestão de fibras e sedentarismo. Para o controle do colesterol são indicadas atividades físicas regulares, dieta saudável e acompanhamento multiprofissional (médicos, nutricionistas, profissionais de educação física e outros).

Dia Nacional

A data foi estabelecida como um alerta para as doenças cardiovasculares (doenças que afetam o coração e os vasos sanguíneos), que, no Brasil, estão entre as principais causas de mortalidade. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 300 mil indivíduos por ano sofrem Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), ocorrendo óbito em 30% desses casos. Estima-se que até 2040 haverá aumento de até 250% desses eventos no país.

Em sua grande maioria, as doenças do coração manifestam-se na vida adulta, mas o processo de aterosclerose (acúmulo de gorduras, colesterol e outras substâncias nas paredes das artérias e dentro delas) tem seu início na infância. O desenvolvimento dessas doenças está associado a diversos fatores de risco, como o aumento do colesterol, pressão alta e tabagismo.

A hereditariedade também deve ser levada em consideração, pois pode determinar um colesterol alto mesmo em pessoas que tenham hábitos saudáveis. Por isso, além da prática de atividade física e da alimentação equilibrada, é importante verificar regularmente as taxas de gordura no sangue e, se necessário, utilizar medicamentos sob prescrição e acompanhamento médico.

Tipos de colesterol

Segundo o Ministério da Saúde, há dois tipos de colesterol: o HDL, considerado “colesterol bom” e o LDL, denominado “colesterol ruim”. Quando em desequilíbrio no organismo, o colesterol torna-se fator de risco para doenças cardiovasculares, aumentando a incidência de Acidente Vascular Cerebral, de morte súbita e de doença coronariana.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o LDL é o mais importante carreador de colesterol no sangue. Costuma ser denominado “mau colesterol” porque seu excesso no sangue associa-se a doença das artérias coronárias. A LDL lipoproteína deposita o excesso de colesterol na parede das artérias provocando a formação de placas gordurosas que estreitam os vasos e podem impedir a circulação do sangue.

Já as HDL lipoproteínas ou “bom colesterol” remove o colesterol da parede das artérias, levando-o de volta ao fígado. Quanto maior sua concentração no sangue, maior a proteção conferida contra o excesso de colesterol e a doença aterosclerótica.

Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC): Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2017 (clique aqui e veja na página 23)

Colesterol x Covid-19

Com a pandemia de Covid-19, o alerta para o controle do colesterol se faz ainda mais necessário, visto que, as doenças do coração são fatores de risco importantes para o desenvolvimento de quadros graves de infecção pelo coronavírus.

O isolamento social, tido como uma das medidas para evitar a propagação da Covid-19, tem provocado o aumento do estresse, da ansiedade e do sedentarismo tanto para os adultos quanto para as crianças, dificultando ou alterando a prática de atividades físicas e os hábitos alimentares. Esses fatores podem contribuir para o descontrole dos níveis do colesterol e requerem atenção redobrada e o devido acompanhamento médico.

A atividade física ajuda a “queimar” o colesterol ruim (LDL) e a aumentar o bom (HDL)

A endocrinologista do IFF/Fiocruz, Lizanka Marinheiro, esclarece dúvidas

Como evitar problemas de colesterol?

Lizanka: Com uma boa alimentação, através de escolhas alimentares equilibradas, longe das dietas muito restritivas e com base nos atuais conceitos da medicina, nutrição e psicologia, aliada à prática de exercícios físicos regulares e possíveis. E, claro, um acompanhamento regular avaliando como está a saúde. Tal prática pode evitar uma das maiores pandemias do mundo: a obesidade!

Quais as principais consequências do excesso de colesterol?

Lizanka: As doenças cardiovasculares, como a hipertensão e os Acidentes Vasculares Cerebrais – AVCs (derrames), que, por sua vez, são consequências da doença aterosclerótica (entupimento dos vasos). Quanto maiores e por mais tempo os níveis de colesterol no sangue, mais chances de doença aterosclerótica.

Problemas de colesterol são mais frequentes em adultos?

Lizanka: Sim, mas com a pandemia de obesidade no mundo, e, por questão de mudança no estilo de vida, notamos esse grave problema cada vez mais frequente em crianças com alto índice de acesso às telas de celular, TV e computador, uso de redes sociais, e fata do brincar ao ar livre, jogos lúdicos e a prática de esporte em grupos.

A dislipidemia (colesterol anormalmente elevado ou gorduras no sangue) pode aparecer também na infância?

Lizanka: Sim, cada vez mais, infelizmente. Existem causas genéticas e metabólicas também, além da obesidade e, por exemplo, da Síndrome de Prader Wili, doença genética que causa obesidade, deficiência intelectual e perda de estatura.

Após diagnosticado, como realizar o acompanhamento/tratamento?

Lizanka: Através de medicações aliadas à orientação alimentar, estímulo ao exercício físico e abordagem psicológica. O grande desafio hoje na saúde é a adesão ao tratamento. Por isso, cada vez mais se faz necessário uma equipe multidisciplinar para o tratamento dessas doenças crônicas não transmissíveis, a exemplo do aumento do colesterol. A educação em saúde é necessária aliada às boas práticas médicas as polícias públicas de saúde.

Pessoas com colesterol alto requerem um cuidado redobrado por conta da pandemia de Covid-19?

Lizanka: Com certeza, o maior índice de mortes das pessoas nessa pandemia de Covid-19 foi justamente os com maiores índices de comorbidades: diabetes, obesidade e hipertensão arterial. Todas essas com certeza deveriam ter, em algum momento, colesterol alto na sua história médica patológica pregressa.

Dicas das nutricionistas da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Mulher do IFF/Fiocruz

Nesta entrevista, as nutricionistas da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Mulher do IFF/Fiocruz, Julyane de Oliveira Sobrinho, Marcela Paranhos Knibel Giura e Verônica de Oliveira Corrêa Rached, orientam que a mulher que apresenta hipercolesterolemia (aumento da concentração de colesterol no sangue) deve ter o acompanhamento da equipe multidisciplinar composta, preferencialmente, por médico, nutricionista e educador físico – é fundamental realizar o acompanhamento permanente e seguir as orientações adequadas.

O colesterol alto é mais prevalente em obesos, mas as mulheres magras também podem ser afetadas?

Julyane, Marcela e Verônica: Sim, é importante saber que ter sobrepeso ou obesidade, e ter a medida da circunferência de cintura principalmente acima de 88 cm, podem aumentar as chances de a mulher ter algumas alterações metabólicas, como ter o colesterol alto, mas não significa que isso irá acontecer somente nesses casos de excesso de peso corporal. Mulheres magras também podem ter colesterol alto, uma vez que vários fatores de risco podem influenciar nesse achado, como a hereditariedade. O estilo de vida exerce também grande influência, já que o sedentarismo somado à alimentação desregrada, principalmente aquela rica em gorduras saturadas e em gorduras trans, e pobre em fibras, pode aumentar o risco de ter colesterol alto. O objetivo nesse caso, é que a atenção com o estilo de vida adequado seja preventiva e permanente ao longo da vida.

Quais alimentos são indicados para uma alimentação saudável?

Julyane, Marcela e Verônica: De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira (2014), recomenda-se para uma alimentação saudável o consumo de alimentos in natura (que são os obtidos diretamente de plantas ou de animais e não sofrem qualquer alteração após deixar a natureza) e minimamente processados (que correspondem à alimentos in natura que foram submetidos a processos de limpeza, remoção de partes não comestíveis ou indesejáveis, fracionamento, moagem, secagem, fermentação, pasteurização, refrigeração, congelamento e processos similares que não envolvam agregação de sal, açúcar, óleos, gorduras ou outras substâncias ao alimento original). Exemplos: legumes; verduras; frutas secas e frescas; tubérculos e outras raízes in natura ou embalados, fracionados, refrigerados ou congelados; arroz branco ou integral; milho em grão ou na espiga; grãos de trigo e de outros cereais; feijão de todas as cores e outras leguminosas; cogumelos frescos ou secos; castanhas, nozes, amendoim e outras oleaginosas sem sal ou açúcar; especiarias frescas ou secas; carnes, aves e pescados frescos, resfriados ou congelados; ovos; leite pasteurizado, ultrapasteurizado (‘longa vida’) ou em pó, iogurte (sem adição de açúcar).

Recomenda-se ainda o controle no consumo de sal, açúcar, óleos e gorduras utilizados nas preparações culinárias. Orienta-se também que a alimentação seja fracionada em 5 ou 6 refeições ao dia, e que a ingestão hídrica diária entre as refeições seja de, no mínimo, 2 litros.

Quais alimentos devem ser evitados?

Julyane, Marcela e Verônica: Recomenda-se evitar os alimentos processados e ultraprocessados. Os processados são fabricados pela indústria com a adição de sal ou açúcar ou outra substância de uso culinário à alimentos in natura para torná-los duráveis e mais agradáveis ao paladar. Exemplos: alimentos conservados em salmoura, ou em solução de sal e vinagre; extrato ou concentrado de tomate conservado em sal ou açúcar; frutas em calda e frutas cristalizadas; carne seca e toucinho; sardinha e atum enlatados; queijos; e pães feitos de farinha de trigo, leveduras, água e sal.

Os ultraprocessados são formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido, proteínas), derivadas de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modificado) ou sintetizadas em laboratório com base em matérias orgânicas como petróleo e carvão (corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e vários tipos de aditivos usados para dotar os produtos de propriedades sensoriais atraentes). Exemplos: biscoitos; sorvetes; balas e guloseimas em geral; cereais açucarados; bolos e misturas para bolo; barras de cereal; sopas, macarrão e temperos ‘instantâneos’; molhos prontos; salgadinhos “de pacote”; refrescos e refrigerantes; iogurtes e bebidas lácteas adoçados e aromatizados; bebidas energéticas; produtos congelados e prontos para aquecimento; temperos prontos; salsichas e outros embutidos; pães e produtos panificados cujos ingredientes incluem substâncias como gordura vegetal hidrogenada, açúcar, amido, soro de leite, emulsificantes e outros aditivos.

Quais orientações específicas podem citar no diagnóstico da hipercolesterolemia?

Julyane, Marcela e Verônica:

Evitar: frituras, pele de aves, gordura aparente de carnes, preparações à milanesa, preparações à parmegiana, carnes gordas (exemplos: vermelha gorda, porco, vísceras e miúdos), frutos do mar (exemplos: camarão e lagosta), embutidos (exemplos: salame, mortadela, presunto, salsicha e linguiça), enlatados (principalmente os que contenham óleo), excesso de gema de ovo, leite e derivados integrais (exemplos: leite integral, manteiga, creme de leite, queijo amarelo, queijos gordos, sorvete cremoso e iogurte integral), doces cremosos, bolos, tortas, biscoitos, chocolates e achocolatados (aqueles abaixo de 70% cacau), pães doces ou cremosos (ricos em gordura trans), maionese, molhos prontos, margarina, bacon e banha de porco.

Preferir: carnes magras (de boi magra, peixes, peru, filé de peito de frango, sem pele, sem gordura aparente, cozidas, assadas, grelhadas ou ensopadas), leite e derivados desnatados (exemplos: leite desnatado; iogurte natural desnatado, iogurte light com restrição de gorduras, ou iogurte zero gordura; queijos magros como a ricota, o cottage, o requeijão light, e o queijo-de-minas frescal ou light), frutas frescas e secas (consumir casca e bagaço das frutas quando possível), legumes, verduras (consumir talos quando possível), cereais integrais (exemplos: arroz integral, macarrão integral, pão integral, torrada integral e aveia), leguminosas (exemplos: feijões, lentilha e grão-de-bico), frutas oleaginosas (exemplos: castanha-do-pará e amêndoa), azeite de oliva extravirgem, chia e linhaça dourada.

Quais exercícios/atividades físicas são indicados para o controle do colesterol?

Julyane, Marcela e Verônica: A liberação para a prática de exercícios físicos tem indicação médica e a prescrição cabe ao educador físico após a liberação. Mas, ser ativo e praticar exercícios físicos regulares são atitudes que contribuem para um estilo de vida mais saudável. Somado à uma alimentação balanceada, os resultados serão satisfatórios, incluindo o controle do colesterol total, diminuição do LDL-colesterol e aumento do HDL-colesterol, além da melhora da saúde à longo prazo.